A NOITE ESCURA DA ALMA, parte 4 de 4

Bom dia.
Leia Salmo 88

Vimos anteriormente:
Quando o céu parece de concreto
Orando quando Deus parece em silêncio
As trevas não têm a última palavra
Subtema de hoje: Uma igreja onde quem chora também pode entrar
O Salmo 88 não fala apenas com quem sofre. Ele também fala com quem está ao lado de alguém que sofre. Esse talvez seja um dos aprendizados mais necessários para a igreja.
Porque nem todos chegam ao culto transbordando de alegria. Algumas pessoas entram no templo depois de uma semana difícil. Outras estão vivendo luto, conflitos familiares, enfermidades, crises financeiras ou batalhas emocionais que ninguém conhece. Há pessoas cantando enquanto tentam conter as lágrimas. Por isso, a igreja não pode ser um lugar onde somente os fortes parecem bem-vindos.
Os salmos de lamento existem nas Escrituras porque Deus sabe que seu povo também atravessa dias de choro. Eles nos dão palavras para quando não temos palavras. E nos ensinam a oferecer espaço para que outros também possam chorar.
Existe uma tentação de transformar todo encontro cristão em uma celebração permanente. É claro que temos razões profundas para nos alegrar. Mas a própria Escritura também nos chama a “chorar com os que choram”. Ambas realidades pertencem à vida cristã.
Os salmos de lamento não servem apenas para quem atravessa dias maus. Eles também educam aqueles que estão vivendo dias bons. Ensinam-nos misericórdia, paciência e compaixão. Em vez de exigir que o outro demonstre uma vitória que ainda não consegue enxergar, aprendemos a permanecer ao seu lado.
O Salmo 88 nos ensina essa postura. Ele nos permite permanecer diante de um sofrimento que ainda não terminou. Nem toda história terá uma solução até o final da conversa. Nem toda oração terminará com uma resposta imediata. Nem toda pessoa sairá de um culto com o problema resolvido. Mas ninguém deveria sair dele sentindo que precisava esconder sua dor para ser aceito.
A igreja é chamada a ser um lugar seguro para a “cana quebrada” e para o “pavio que fumega”. Um lugar onde quem está fraco encontra irmãos que o ajudam a carregar o peso, onde a pessoa pode dizer “estou cansada” sem ouvir imediatamente uma acusação de falta de fé. Talvez você esteja justamente nessa situação.
Se hoje tudo o que você consegue fazer é segurar-se no último fio de força, use esse fio para clamar. Deus conhece a situação pela qual você está passando. Mesmo quando sua presença parece silenciosa, sua oração não desaparece no vazio.
O convite do salmo continua sendo este: leve sua noite a Deus e permaneça diante dele. Você não precisa produzir uma grande demonstração de fé. Pode simplesmente dizer: “Senhor, eu ainda estou aqui”.
E, se você está vivendo uma fase boa, olhe ao redor. Talvez Deus queira usar sua força para sustentar alguém que hoje não consegue caminhar sozinho. A pessoa sentada perto de você pode estar atravessando uma noite que você desconhece.
Pequenos gestos podem se tornar instrumentos da graça de Deus. Uma mensagem. Uma visita. Uma oração feita junto. Um olhar acolhedor. Uma presença silenciosa. Uma conversa sem pressa.
O Salmo 88 termina na escuridão, mas o fato de estar na Bíblia já nos diz alguma coisa: Deus deu espaço na sua Palavra para a oração de alguém que não conseguia enxergar a luz.
Isso significa que também deve haver espaço entre nós. Espaço para perguntas, para lágrimas, para o silêncio, para pessoas que ainda estão esperando.
E, acima de tudo, espaço para esperança. Porque a esperança cristã não exige que chamemos a noite de dia. Ela apenas nos lembra de que a noite não durará para sempre.
Talvez hoje você não veja a mão de Deus nem ouça sua voz. Talvez tudo ainda pareça escuro.
Persevere. A mesma mão que sustentou Cristo e o levantou dentre os mortos continua poderosa.
Conte a Deus sua dor. Permita que irmãos caminhem ao seu lado. E, quando você estiver forte, faça o mesmo por alguém. Na família de Deus, ninguém deveria atravessar sozinho a noite escura da alma.
O Salmo 88 termina de uma maneira desconcertante. Depois de derramar sua dor diante de Deus, o salmista não anuncia uma mudança de circunstâncias. Não há uma frase triunfante dizendo que tudo se resolveu. Sua última imagem é a das trevas ao seu redor.
Mas a bendita presença do Senhor Jesus, prometida por ele mesmo até o fim dos tempos, nos dá forças para continuar, pois Ele enfrentou a noite mais escura da alma que já existiu:
Durante os seus dias de vida na terra, Jesus ofereceu orações e súplicas, em alta voz e com lágrimas, àquele que o podia salvar da morte, sendo ouvido por causa da sua reverente submissão. Embora sendo Filho, ele aprendeu a obedecer por meio daquilo que sofreu; e, uma vez aperfeiçoado, tornou-se a fonte da salvação eterna para todos os que lhe obedecem...
(Hebreus 5.7-9)



Comentários