A NOITE ESCURA DA ALMA, parte 2 de 4

Bom dia.
Leia Salmo 88

Continuamos com a reflexão sobre o Salmo 88, "A noite escura da alma" (veja parte 1)
Vimos anteriormente:
Quando o céu parece de concreto
Subtema de hoje: Orando quando Deus parece em silêncio
Uma das coisas mais impressionantes no Salmo 88 não é apenas a intensidade do sofrimento do salmista. É o fato de que, apesar de toda a dor, ele continua orando.
Ó Senhor, Deus de minha salvação, clamo a ti de dia, venho a ti de noite.... todos os dias, clamo por ti, Senhor, e a ti levanto as mãos... A ti, Senhor, eu clamo; dia após dia, continuarei a suplicar.
(Salmo 88.1,9,13)
Ele clama “de dia e de noite”. Diz que ora “todos os dias”. Afirma que pela manhã sua oração chega diante de Deus. Não há resposta visível, não há alívio imediato, não há mudança de cenário. Ainda assim, ele continua voltando ao Senhor. Talvez essa seja uma das formas mais profundas de fé.
É relativamente fácil orar diante de uma resposta clara. Com a abertura de uma porta, a melhora num diagnóstico, a resolução de um problema ou a simples percepção intensa da presença de Deus, nosso coração encontra razões imediatas para agradecer.
Mas e quando nada muda? Você já orou por meses ou anos e a resposta não vem?
O primeiro versículo do Salmo 88 contém uma pequena frase que sustenta todo o restante: “Ó Senhor, Deus da minha salvação”. Isso é extraordinário.
Antes de apresentar sua dor, o salmista se lembra de quem Deus é. Sua experiência diz: “Estou nas trevas”. Porém, sua fé responde: “Ainda assim, Tu és o Deus da minha salvação”.
Ele não compreende o que Deus está fazendo, mas sabe a quem pertence. Na angústia, ele não foge de Deus; corre para Deus. Essa é uma imagem poderosa da perseverança. Como Jacó, que se agarrou ao Senhor e disse que não o deixaria ir sem receber a bênção, o salmista permanece diante de Deus mesmo quando tudo ao seu redor parece negar a esperança.
Deus nunca fere, a não ser por amor, e nunca tira nada, a não ser para dar.
François Fénelon, 1651-1715
Orar no escuro é uma das maiores vitórias da fé. Séculos depois, João da Cruz usaria a expressão “a noite escura da alma” para falar de experiências em que os confortos espirituais parecem desaparecer.
Há momentos em que Deus permite que caminhemos sem as sensações que normalmente associamos à sua presença. Não porque Ele tenha deixado de nos amar, mas porque a fé precisa aprender a descansar no caráter de Deus, e não apenas nos sentimentos que experimentamos.
Existe uma grande diferença entre Deus estar ausente e Deus parecer ausente.
Nossos sentimentos são reais, mas não são infalíveis. Podemos sentir que fomos esquecidos sem termos sido esquecidos. Sentimos que nossas orações não foram ouvidas, embora elas tenham chegado diante do trono de Deus. Podemos atravessar uma noite longa com a sensação da solidão sem que o Senhor tenha saído do nosso lado:
De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei.
(Hebreus 13.5)
Muitos servos de Deus conheceram essa experiência. Charles Spurgeon, um dos maiores pregadores do século XIX, enfrentou períodos profundos de depressão, além de dores físicas intensas. Houve ocasiões em que pregou enquanto ele próprio atravessava uma batalha interior.
Isso nos lembra de algo importante: sofrimento emocional, esgotamento e períodos de profunda tristeza não são necessariamente sinais de ausência de fé.
Existem dias em que a dor atropela nossas explicações. Ela pode vir na forma de uma perda, uma enfermidade ou uma decepção; uma crise familiar ou uma luta prolongada podem lançar sombras sobre a alma. Talvez você continue fazendo o que sempre fez — lendo a Bíblia, orando, indo à igreja — e, ainda assim, não perceba nenhuma mudança.
As estrelas podem ser vistas do fundo de um poço escuro, quando não podem ser discernidas do topo de um monte. Assim também, muitas coisas são aprendidas na adversidade, com as quais o homem próspero nem sonha.
C. H. Spurgeon, 1834-1892
O Salmo 88 nos convida a continuar. Não porque seja fácil nem porque tenhamos todas as respostas. Mas porque conhecemos aquele a quem estamos clamando.
Fé verdadeira não é enxergar claramente todos os caminhos. Muitas vezes, é continuar caminhando quando mal conseguimos ver o próximo passo. É continuar batendo à porta do céu porque sabemos quem está do outro lado.
A característica peculiar dos olhos da fé é ver no escuro.
Augustus M. Toplady, 1740-1778
Autor do hino "Rocha Eterna"
Se Deus parece em silêncio hoje, fale com Ele mesmo assim. Foi o que o salmista fez. Se sua oração parecer fraca, ore fracamente. Se você tiver apenas algumas palavras, entregue essas palavras. Se conseguir dizer somente “Senhor, tem misericórdia de mim”, diga isso.
O salmista terminou sua oração ainda no escuro. Mas terminou orando. Talvez, em alguns períodos da vida, essa seja a vitória que Deus nos chama a alcançar: não compreender tudo, não sentir tudo, não resolver tudo — apenas não soltar sua mão.
Nossa impaciência só aprende a paciência mediante o espinho da demora e da escuridão.
J. Charles Stern, 1895-1983
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