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A NOITE ESCURA DA ALMA, parte 1 de 4

Foto do escritor: Luiz Fernando Arêas
Luiz Fernando Arêas
há 10 horas
3 min de leitura

Bom dia.




Quando o céu parece de concreto


Há dias em que a vida com Deus parece leve. A oração flui, a Bíblia aquece o coração, uma canção nos emociona e saímos do culto com a sensação de que o céu está perto. Nesses dias, crer parece simples.


Infelizmente, nem todos os dias são assim.


Há períodos em que oramos e parece que nossas palavras não passam do teto. Pedimos direção e não vemos resposta. Procuramos consolo e encontramos silêncio. O coração pesa. A esperança enfraquece e até aquilo que antes nos fortalecia parece distante. É para dias assim que o Salmo 88 foi preservado nas Escrituras. E graças a Deus por este salmo problemático.


Ó Senhor, Deus que me salva, a ti clamo dia e noite. Que a minha oração chegue diante de ti; inclina os teus ouvidos ao meu clamor.

(Sl 88.1,2)


Ele é, provavelmente, o salmo mais sombrio de toda a Bíblia. Outros salmos de lamento começam na dor, mas em algum momento apresentam uma mudança: surge uma declaração de confiança, um voto de louvor, uma lembrança da fidelidade de Deus. No Salmo 88, essa virada praticamente não acontece. O salmista termina cercado pelas trevas.

E justamente por isso esse salmo é tão precioso.


A Bíblia não esconde a experiência de quem sofre. Ela não nos apresenta apenas pessoas fortes, sorridentes e espiritualmente vitoriosas. Hemã, o autor deste salmo, era um homem de Deus, alguém ligado à adoração de Israel, membro da corte do rei Davi, e mesmo assim conheceu uma angústia tão profunda que suas palavras parecem sair do fundo de um poço.


Tenho sofrido tanto que a minha vida está à beira da sepultura! Sou contado entre os que descem à cova; sou como um homem que já não tem forças. Fui colocado junto aos mortos, sou como os cadáveres que jazem no túmulo, dos quais já não te lembras, pois foram tirados de tua mão.

(Sl 88.3.5)


Isso confronta uma ideia perigosa: a de que um cristão verdadeiro precisa estar sempre bem. Às vezes, sem perceber, criamos dentro da igreja uma espécie de “evangelho da felicidade obrigatória”. Quem está alegre parece espiritual. Quem está abatido começa a se perguntar se há alguma coisa errada com sua fé. O Salmo 88 desmonta essa aparência.


O salmista não coloca “roupas de igreja” em sua oração. Ele não tenta deixar suas palavras bonitas para Deus. Fala da cova, da ira, do abandono, da solidão. Algumas de suas frases chegam a nos causar desconforto. Mas talvez essa seja justamente uma das lições mais importantes do salmo: Deus não exige orações perfeitamente organizadas de quem está sangrando.


Em certos dias, não teremos uma explicação teológica completa para aquilo que está acontecendo. Nossas orações expressarão nossa desorientação. Talvez tudo o que consigamos dizer seja: “Senhor, eu não entendo”. Ou: “Até quando?”. Ou ainda: “Eu não aguento mais”. Isso também é oração.


O propósito das provações da vida é a edificação, não o nosso prejuízo.

Maltbie Babcock, 1858-1901


Há diferença importante entre abandonar Deus e lamentar diante de Deus. O lamento bíblico não é incredulidade disfarçada. Pelo contrário: nós nos queixamos a Deus justamente porque ainda cremos que Ele ouve, governa e pode agir. Quem ora sua dor ainda está voltado para o Senhor.


Orar o Salmo 88 é como assistir a um repórter transmitindo ao vivo do meio de um furacão. Ele não está num estúdio confortável analisando a tempestade depois que tudo passou. Está lá dentro. O vento sopra, a chuva atinge seu rosto e ele precisa gritar para ser ouvido. Seu relato não é elegante; é verdadeiro.


Assim também acontece conosco. Há sofrimentos que só podem ser narrados de dentro da tempestade.


Por isso, talvez você não precise melhorar sua oração hoje. Só precisa torná-la mais sincera. Pare de tentar impressionar Deus com palavras que não correspondem ao que está acontecendo em seu coração. Conte a Ele onde dói. Fale de sua frustração. Confesse seu medo. Diga que está cansado. Deus já conhece tudo isso.


A oração não serve para informar Deus sobre nossa dor, mas para nos colocar diante dEle com aquilo que realmente somos.

O Salmo 88 nos ensina que existe fé até no grito. Às vezes, continuar falando com Deus enquanto o coração está quebrado já é uma poderosa declaração de confiança.


Talvez hoje você não tenha um cântico de vitória. Tudo bem. Leve a Deus a oração que você tem. Mesmo que ela venha acompanhada de lágrimas. Mesmo que seja apenas um pedido de socorro.


A fé não começa quando conseguimos esconder a dor. Muitas vezes, ela começa justamente quando encontramos coragem para levá-la, sem maquiagem, à presença de Deus.


A grande tragédia da vida não são as orações não respondidas, mas as que não foram feitas.

F. B. Meyer, 1847-1929


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