OBSTÁCULOS PODEM SE TORNAR DEGRAUS - parte 2 de 4

Bom dia.
Leia: Mateus 15.21–28

Iniciamos a reflexão "Obstáculos podem se tornar degraus" (veja parte 1).
Vimos ontem:
Quando Deus parece em silêncio.
Subtema de hoje:
Quando até as pessoas se tornam obstáculos.
A mulher cananeia chegou até Jesus carregando uma dor profunda: sua filha sofria terrivelmente. Ela venceu barreiras culturais e religiosas, suportou o silêncio inicial do Mestre e continuou clamando. Mas então apareceu outro obstáculo, talvez um dos mais frustrantes: as próprias pessoas que estavam perto de Jesus.
Jesus não disse uma só palavra em resposta. Então os discípulos insistiram com ele: “Mande-a embora; ela não para de gritar atrás de nós”.
(Mateus 15.23)
É uma cena desconfortável. Aqueles homens caminhavam com Jesus, ouviam seus ensinamentos e testemunhavam sua compaixão. Mesmo assim, diante de uma mulher aflita, a primeira reação deles foi desejar que ela fosse embora.
A dor dela os incomodava. O clamor dela perturbava a tranquilidade do grupo. Em vez de enxergarem uma pessoa ferida, enxergaram um problema a ser removido.
Esse detalhe do texto precisa falar ao nosso coração. É possível estar perto das coisas de Deus e ainda assim perder a sensibilidade com as pessoas. É possível conhecer a linguagem da fé, frequentar cultos, servir, ensinar, liderar e, mesmo assim, não perceber o sofrimento de quem está clamando ao nosso lado.
Por isso, uma das orações que deveríamos fazer com frequência é:
“Senhor, não permita que eu me torne um obstáculo para alguém que está tentando chegar até ti.”
Há pessoas que chegam às igrejas machucadas, envergonhadas, confusas, carregando histórias que desconhecemos. Nem sempre sabem se comportar como esperamos. Podem fazer perguntas desconfortáveis, trazer um passado difícil ou expressar sua dor de maneira que nos incomoda.
O evangelho, porém, nos chama a olhar para elas como Jesus olha: com compaixão, graça e sensibilidade.
Essa cena também fala àqueles que já enfrentaram oposição justamente quando mais precisavam de ajuda. Há quem tenha procurado apoio e encontrado julgamento; compartilhado uma luta e recebido frieza; buscado encorajamento e acabado ainda mais culpado. Alguns carregam, inclusive, feridas causadas dentro de ambientes religiosos.
A mulher cananeia poderia ter desistido naquele momento. Poderia ter pensado: “Se os discípulos de Jesus não me querem aqui, então vou embora.” Mas ela não confundiu os discípulos com Jesus. Essa distinção é fundamental.
Nossa fé precisa estar firmada em Jesus, não na perfeição daqueles que o seguem.
Pessoas podem falhar conosco. Líderes podem decepcionar. Comunidades podem cometer erros. Cristãos podem agir de maneira insensível. Mas nenhuma dessas falhas muda o caráter de Cristo.
Não sei por quais caminhos Deus me conduz, mas conheço bem meu guia.
Martinho Lutero, 1483-1546
Depois da oposição dos discípulos, o texto apresenta uma nova barreira:
Jesus disse à mulher: “Fui enviado para ajudar apenas as ovelhas perdidas do povo de Israel”.
(Mateus 15.24)
Para aquela mulher gentia (uma não judia), a frase parecia fechar ainda mais a porta. Ela poderia argumentar. Poderia reclamar. Poderia enumerar razões pelas quais merecia atenção. Em vez disso, Mateus diz que ela se aproximou, prostrou-se diante de Jesus e implorou mais uma vez:
“Senhor, ajude-me!”.
(Mateus 15.25)
Que oração extraordinária. Curta. Direta. Sem enfeites. “Senhor, ajude-me.”
Há momentos em que não temos palavras para grandes orações. A dor é tão pesada que nossa teologia inteira parece caber em três palavras.
“Senhor, ajude-me.”
“Senhor, sustente-me.”
“Senhor, socorra-me.”
E isso basta para começar.
A oração daquela mulher revela algo muito importante: ela não permitiu que cada novo obstáculo a afastasse de Cristo. Ao contrário, cada barreira a levou para mais perto dele.
Primeiro ela clamava à distância. Agora está aos seus pés. O obstáculo tornou-se degrau.
Isso muda a maneira como podemos olhar para nossas próprias dificuldades. Nem toda oposição precisa nos empurrar para trás. Algumas experiências, quando levadas a Deus, podem aprofundar nossa dependência, amadurecer nossa fé e purificar nossas motivações.
A pergunta não é apenas: “Por que existe esse obstáculo?” Talvez também devamos perguntar: “Como posso me aproximar mais de Cristo por meio disso?”
Quando os problemas encontram os cristãos orando, eles fazem mais bem do que mal.
John Blanchard, 1932-2021
A mulher ainda não tinha recebido a cura da filha. A situação em casa ainda era a mesma. Mas algo já estava acontecendo dentro dela. Sua fé estava se revelando perseverante.
Há lutas em que Deus muda primeiro nossa posição diante dele antes de mudar as circunstâncias ao nosso redor.
Talvez hoje existam pessoas que decepcionaram você ou palavras que ainda doem. Não permita que essas experiências tenham a palavra final sobre sua caminhada com Deus.
Passe pelo obstáculo. Vá além das pessoas. Chegue aos pés de Jesus e diga novamente:
“Senhor, ajude-me.”
Oração
Senhor, livra-me de ser insensível à dor de quem está tentando se aproximar de ti. E quando eu for ferido ou decepcionado por pessoas, ajuda-me a não confundir as falhas delas com o teu caráter. Que cada obstáculo me leve para mais perto de Cristo. Quando me faltarem palavras, recebe minha oração simples: Senhor, ajude-me. Amém.



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