• Luiz Fernando Arêas

ACEITAÇÃO

Bom dia.


Leia Romanos 15.5-7


O texto de hoje é de Paul Brand e Philip Yancey, extraído do livro "Histórias para o coração", Alice Gray, United Press.

John Karmegan, um paciente leproso, foi me procurar em Vellore, na Índia. Sua enfermidade encontrava-se em estado avançado. Pouco podíamos fazer por ele em termos cirúrgicos, porque seus pés e mãos já haviam sofrido lesões irreparáveis. Podíamos, contudo, oferecer-lhe um lugar para morar e um emprego no Centro Vida Nova.


Uma paralisia de um dos lados da face o impedia de sorrir normalmente. Quando John tentava dar um sorriso, suas feições ficavam distorcidas, chamando a atenção para a paralisia. Normalmente, as pessoas reagiam com um grito sufocado ou com um gesto de medo, e por isso ele aprendeu a não sorrir. Margaret, minha esposa, havia suturado parcialmente suas pálpebras para proteger-lhe a visão. A paranoia de John foi aumentando cada vez mais em relação ao que os outros pensavam dele.


John teve problemas terríveis no convívio social, talvez como forma de reagir à sua aparência desfigurada. Demonstrava raiva pelo mundo e agia como um baderneiro. Lembro-me de várias situações tensas que tivemos de enfrentar pelo fato de haver provas contra John de envolvimento em roubos e em outros atos de desonestidade. Ele tratava seus companheiros enfermos com crueldade e resistia a toda sorte de autoridade, chegando ao ponto de organizar greves de fome para nos hostilizar. Na opinião da maioria das pessoas, ele era um homem irrecuperável.


Essa condição irrecuperável de John deve ter atraído a atenção de minha mãe, porque ela sempre se dedicou a compreender os elementos mais indesejáveis da espécie humana. Ela preocupou-se com ele e passava horas a seu lado, até o dia em que o levou a aceitara fé cristã. Ele foi batizado em um tanque de cimento nas Instalações do leprosário.


A conversão, contudo, não diminuiu os acessos de raiva de John contra o mundo. Ele fez alguns amigos entre os companheiros de enfermidade, mas uma vida inteira de rejeição e de maus-tratos deixara marcas permanentes de exacerbação contra todas as outras pessoas. Certo dia, John me perguntou, de maneira quase desafiadora, o que aconteceria se ele visitasse a igreja Tamil de Vellore (Índia).


Fui falar com os líderes da igreja, descrevi John e assegurei-lhes que, apesar de suas deformidades marcantes, ele havia entrado em uma fase da doença que não poria em risco a saúde dos membros da congregação. Os líderes concordaram com a visita de John.

— Ele pode participar da Ceia? - perguntei, sabendo que a igreja usava o mesmo cálice para todos.


Eles se entreolharam, refletiram por alguns instantes e concordaram em que John também poderia participar.


Pouco tempo depois, levei John à igreja, que se reunia em uma casa simples de tijolos caiados, com teto de chapas de ferro onduladas. Foi um momento tenso para ele. Todos nós, pessoas sadias, mal podemos imaginar o trauma e a paranoia que ocorrem dentro de um paciente leproso que tenta, pela primeira vez, entrar em um ambiente como aquele. Fiquei em pé ao lado dele nos fundos da igreja. Seu rosto paralisado não expressava nenhuma reação, mas um ligeiro tremor deixava transparecer seu turbilhão interior. Orei silenciosamente para que nenhum membro da igreja demonstrasse o mais leve sinal de rejeição.


Assim que entramos na igreja, durante o cântico do primeiro hino, um indiano virou-se para trás e nos viu. Devíamos ser uma dupla estranha: um branco em pé ao lado de um leproso com o rosto desfigurado. Prendi a respiração.


E vejam o que aconteceu. O homem fechou o hinário, deu um largo sorriso e apontou para a cadeira a seu lado, convidando John a sentar-se ali. John foi pego de surpresa. Altivo, ele caminhou com passos arrastados até a fileira de cadeiras e sentou-se. Murmurei uma oração de gratidão.


Aquele único incidente marcou uma mudança radical na vida de John. Anos mais tarde, retornei a Vellore e fiz uma visita a uma fábrica que havia sido instalada para dar emprego a deficientes físicos. O gerente queria mostrar-me um equipamento que produzia minúsculos parafusos para peças de máquinas de escrever. Enquanto caminhávamos pela fábrica barulhenta, o gerente gritou para mim que me apresentaria a um funcionário exemplar, o qual acabara de receber um prêmio da matriz, representando todas as filiais da Índia, pela excelente qualidade de seu trabalho, com um número extremamente baixo de peças rejeitadas.


Quando chegamos ao seu local de trabalho, o operário virou-se para nos cumprimentar, e eu vi o inconfundível rosto desfigurado de John Karmegan. Ele limpou a graxa de sua mão rechonchuda e contorceu o rosto, criando o sorriso mais feio, mais encantador e mais radiante que já vi. Em seguida, ele me mostrou, para minha avaliação, um punhado daqueles minúsculos parafusos que o fizeram ganhar o prêmio.


Um simples gesto de aceitação talvez não signifique muito, mas, para John Karmegan provou ser decisivo. Após ter sido julgado a vida inteira por sua imagem física, ele finalmente foi acolhido por causa de outra Imagem. Eu acabara de ver uma reprodução da própria reconciliação de Cristo. Seu Espírito havia induzido seu Corpo na terra a adotar um novo membro, e, finalmente, John soube que pertencia a ele.



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